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Entrevista

24/11/2016
A democracia das lentes

xande piresNo dia 19 de junho é comemorado o dia do Cinema Brasileiro. A data é uma homenagem ao italiano Afonso Segreto, que fez as primeiras filmagens em solo brasileiro com um cinematógrafo ainda em 1898. Para os mineiros, orgulhosos que são de sua gente e sua terra, há duas datas: em 5 de novembro de 1983, faleceu Humberto Mauro, mineiro de Volta Grande, um dos pioneiros na produção nacional.

 

De lá para cá, o processo de produção de vídeo mudou drasticamente com a democratização da câmera. Para entender um pouco deste novo mundo de lentes e do poder do Cinema, conversamos com Xande Pires, diretor e fundador da Imago Filmes, agência que está há mais de 20 anos no mercado.

 

Na universidade, abandonou o teatro após se apaixonar pelo audiovisual, e decidiu fazer Comunicação Social na PUC Minas. Já trabalhou com TV e a sua produção abrange documentários, ficções, longas, médias e curtas. Atualmente, também dá aula na UFMG, é palestrante na PUC Minas, e tem o projeto TV Imago, de produção de conteúdo para web.

 

Qual o diferencial do audiovisual para apelar à emoção do público?

Sou suspeito para falar, porque antes de ser um profissional eu era um apaixonado pelo cinema. Acredito que, como o próprio nome já diz, o audiovisual é uma ferramenta maravilhosa porque é completa, essa junção de imagem e som permite transmitir uma série de percepções e sutilezas que passam uma mensagem mais direcionada e objetiva.

 

Há detalhes na tela que, quando bem pensados e trabalhados, podem mexer com o público até mesmo de forma inconsciente, é uma mídia muito poderosa.

 

E como a produção nacional é vista pelo mundo?

O Brasil sempre teve um nome de peso lá fora, somos um povo muito criativo, desde Glauber Rocha até grandes diretores atuais. Na verdade acho que o que realmente falta é a formação de público interno. Até temos boas bilheterias com filmes comerciais, ao modelo Globo Filmes. Mas documentários e filmes menos mainstream não tem esse público forte, é uma questão cultural mesmo.

 

E aí entra o papel dos festivais, é onde abrem as portas para que esse gênero chegue ao público. Festivais como Tiradentes, Brasília e Rio são extremamente importantes para a produção nacional.

 

Como é o mercado mineiro de audiovisual?

O mercado mineiro publicitário tem visto uma queda, não há como negar que a crise impacta, porque a publicidade é sempre um dos primeiros recursos onde se corta para diminuir gasto. Uma pena que ela seja vista como gasto, porque é na verdade um investimento essencial para qualquer modelo de negócio.

 

Mas, ao mesmo tempo, o cinema, TV e produção de conteúdo em vídeo para a Internet vem crescendo. Eu acho que estamos vendo uma migração do mercado, não necessariamente uma queda.

 

Hoje temos vários editais para diretores, produtores, roteiristas e os profissionais que o cinema envolve. Eu mesmo estou produzindo cinco documentários para a Ancine por meio de editais. Será uma série que se chama “O céu de lá”, para O Canal Brasil, onde artistas plásticos contam sobre suas origens, o processo de migração.

 

E com a democratização da tecnologia, com o próprio público fazendo audiovisual, isso mudou?

De uma perspectiva de mercado, não. A inclusão ampliou e fatiou muito o mercado: se antes era o equipamento o diferencial, hoje todo mundo tem ilha de edição e um celular que filma em 4k. Então é o olhar de quem tá por trás da câmera que irá pesar, o knowhow de quem sabe fazer.

 

Se você entrega resultados com profissionalismo, vai se destacar, sem problemas.

 

Como profissional, quais os principais desafios de se fazer audiovisual?

Eu brinco que filmar no Brasil é matar um leão por dia, porque ainda falta muito incentivo, é um mercado muito instável. Hoje um profissional do audiovisual oscila entre um período com grandes produções, até mesmo um excesso de trabalho e oportunidade, e em seguida uma baixa muito grande. Não é um mercado que você sente que está sempre crescendo, abrindo possibilidades e se estabilizando.

 

Ainda faltam incentivos, e isso vem não só do mercado profissional, mas principalmente da formação. É preciso investir nos cursos, nas pessoas, tornar a profissão mais sólida.


Para os profissionais mineiros é ainda mais difícil. Não é raro vermos diretores e produtores mineiros migrando para o eixo Rio-São Paulo, onde o mercado é um pouco maior. É claro que há pessoas que ficam aqui e consegue fazer o cinema mineiro, Minas tem um nicho forte na produção nacional.

 

Hoje fala-se na geração YouTube. Como ela impacta esse mercado?

Para as produtoras, esse mercado não abre possibilidade nenhuma, porque é outra lógica de produção e consumo: são pessoas que com a própria câmera filma, edita e até divulga. É um mercado, mas é mais individual, pessoas físicas competindo entre si.

 

Mas a internet trouxe, por outro lado, a produção de conteúdo profissional para redes sociais. Hoje, muitas agências digitais fazem conteúdo para as marcas que querem migrar para internet, é um mercado muito poderoso que tá apenas começando.

 

Outro caminho do audiovisual, a TV, vai resistir a internet?

Essa briga de mídias é uma história antiga. Após a chegada da TV, falou-se que o rádio acabaria, hoje ele se reinventou e continua forte. Agora tem o YouTube e Netflix, e a TV parece sim estar ameaçada. Eu acho que de fato, algumas mídias vão tendo impacto maior com novas gerações, minha filha de 13 anos, por exemplo, não vê televisão mais. Mas não é preto no branco.

 

Talvez ela não tenha a mesma relação que a minha geração teve, mas as TV's também estão enxergando essa mudança e começando a criar canais de conteúdo para TV, iniciando uma migração para a internet. E eles vem com a vantagem de um conhecimento em qualidade de produção, o know how, de lidar com audiência.

 

Algumas plataformas, como snapchat, produzem um enorme volume de vídeos diariamente, que se apagam em 24 horas. Como você vê esse desapego das novas gerações do conteúdo?

Um dos grandes motivos pelo que me apaixonei pelo cinema é justamente o contrário dessa lógica: o audiovisual tem o poder de ser imortal, registrar emoções de uma forma que você possa ver e rever muitas vezes. Por isso acho até paradoxal um registro que desapareça depois de um tempo. Eu vejo essas novas mídias mais como uma forma de comunicação imediata do que como registro.

 

E aí eu tenho um pouco de receio, não como uma ameaça sério à nossa relação com a imagem e o mercado em sim, mas sim com a exposição exagerada da vida privada. Às vezes estamos mais preocupado em nos mostrar na internet de uma forma do que ter de fato contato.

 

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