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Entrevista

05/12/2016
Muito além da estética

gvO design é um elemento estratégico dentro da comunicação das empresas, e é por meio dele que acontece o primeiro contato com a marca. Sua mensagem vai influenciar a percepção do público sobre suas propostas e valores como empresa.

 

Para entender um pouco desse instrumento e as principais tendências do mercado de trabalho, conversamos com o designer gráfico Gustavo Vitulo.

 

Natural de Ponte Nova, interior de Minas Gerais, estuda Design Gráfico na Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), e é especializado em criação e estratégias de marca, design editorial, impressos, embalagens, design de interfaces e arquitetura da informação.

 

Com um projeto de identidade visual do bairro Santa Tereza, foi premiado no Behance Portfolio Reviews, foi destaque no Anuário Acadêmico 2014, que seleciona os melhores trabalhos do país, e finalista no Prêmio Oxford de Design. Tem trabalhos publicados em veículos nacionais e internacionais como Computer Arts Magazine, Zupi Magazine e Revista Wide.

 

O que te chamou a atenção no design?

Minha trajetória não é incomum, combina bastante com o caminho que muitos designers fazem. O meu primeiro contato com design foi em 2008, na época eu tinha por volta de 12 anos, e criei um site de jogos. Ainda sem saber exatamente o que era um designer, eu já desenvolvia muitas peças relacionadas ao webdesign, também criei uma identidade visual para a página, aprendendo de acordo com a minha necessidade.

 

Acabei me interessando e conhecendo a área, e logo abandonei o webdesign, passei a me encantar mais pela parte artística. Aos poucos fui me identificando, sentia que eu sempre me voltei mais para o lado visual, é algo muito forte em mim.

 

Como você descreve sua trajetória no design?

Ainda em Ponte Nova, antes de iniciar o curso, comecei a trabalhar como arte finalista em uma gráfica. Foi uma experiência prática que me ajudaria muito quando comecei a graduação, com uma carga mais teórica. Tanto que assim que cheguei em Belo Horizonte, já na primeira semana consegui um estágio.

 

A partir daí, o meu desafio foi equilibrar as duas coisas, o acadêmico, com uma base conceitual, e o estágio, que me deu uma grande percepção de mercado. Juntas, essas experiências me nortearam para me encontrar como designer e trabalhar também o meu marketing pessoal. Porque o trabalho de um designer é comunicar marcas, mas ele não pode deixar de lado a sua marca, divulgar seu trabalho, até mesmo para estar no mercado e ter um feedback. Nessa área, ficar em uma bolha e não arriscar é prejudicial a um profissional.

 

Pela sua experiência, o que acha do mercado mineiro?

Eu vejo como um mercado ainda muito tradicionalista, temos muitas marcas e ações pensando fora da caixa, mas a maioria vem de São Paulo. Eu vejo que as marcas daqui absorvem muito da mineiridade, uma coisa ligada a tradição de ser discreto e “comer quieto”. Empresas com muito tempo de mercado acabam procurando uma posição de segurança, tem medo de se arriscar a um rebranding ou ter ousadia no mercado.

 

O problema é que muitas não entendem o design como investimento tangível, e sim como pura estética, para embelezar a sua marca. Quando se investe no design você cria toda uma relação com seu público, e isso impacta em lucro e traz resultado financeiro.

 

O que falta para mudar?

Eu gosto muito da área do neuromarketing porque foca nisso, entender o que as pessoas pensam quando não estão pensando conscientemente. Cores, formas e tipografia tem poder, se falamos na cor vermelha é natural pensarmos em uma Coca-Cola, por exemplo. Acredito que ela pode trazer o design para dentro das estratégicas das marcas.

 

A entrada de empresas novas e a onda de startups em Belo Horizonte, com o San Pedro Valley, também devem influenciar as empresas tradicionais. Esse mercado é jovem, e já tem uma relação mais próxima e consciente com o design, a presença delas mudam o pensamento do mercado.

 

Como é seu processo criativo?

Eu sou apaixonado pelo design thinking, pensar no trabalho como tendo um objetivo prático, e a partir daí definir o conceito da marca e das peças. Você define um conceito, seja uma palavra ou uma frase, e a partir dela você percorre um caminho para chegar ao seu resultado. Quando tenho dúvida ou bloqueio, volto a esse conceito.

 

Por exemplo, no trabalho sobre a identidade visual do bairro Santa Tereza, defini “alegria que te aquece”. É uma frase que traz o que quero passar, a alegria do Santa Tereza e o seu calor humano. Todas as decisões foram guiadas a partir dela, a paleta de cores com tons quentes, a tipografia com letras é tipo escrita a mão, calor humano.

 

O conceito é importante para criar um padrão e uma identidade, as coisas não ficam soltas.

 

Quais são seus maiores ídolos e influências?

No Brasil eu admiro muito o trabalho do Alexandre Wollner, é o designer que fez a identidade visual do Itaú, criada em 1973 e que perdura até hoje. Seu trabalho mostra como uma marca bem trabalhada pode ser renovada sem nunca perder o seu conceito inicial.

 

Eu também gosto muito da escola Bauhaus pela maneira como o aspecto funcional se sobrepõe a estética. Eles trazem uma visão que sai um pouco do artístico e vai para o funcional.

 

Já com um apelo mais conceitual e estético, gosto do Stefan Sagmeister, que é um artista que foge do padrão muitas vezes e me inspira a sair do óbvio. Nos meus trabalhos, procuro manter um equilíbrio entre esses dois aspectos, que considero fundamental.

 

Quais as principais tendências do mercado atualmente?

Eu acredito que o minimalismo chegou para ficar, as coisas estão se reduzindo, passando sua mensagem diretamente.

 

Um outro aspecto que é preciso estar atento é que não pensamos em interfaces gráficas mais. O Google acabou de lançar seu smartphone, concorrente direto do iPhone, e que tem uma central totalmente comandada por voz. Onde o designer entra nesse trabalho?

 

É tanto minimalismo que as interfaces estão migrando para outros campos que não o visual. Acredito que o designer vai sair cada vez mais da estética e ir para a parte estratégica de desenvolvimento de novos produtos.

 

Falando um pouco das ferramentas de criação, como você vê as recentes disputas entre Apple e Microsoft para conquistar os criadores?

Eu acho que o básico é o bom e velho papel e caneta. Ele dá origem a tudo que precisamos, qualquer peça ou etapa da criação podem ser trabalhadas ali. Ferramentas são importantes, mas acho que o profissional que sabe criar faz sua ferramenta de trabalho, encontra caminhos para vencer um obstáculo criativo. Não adianta um ateliê de última geração e alto investimento.

 

Mas falando em ferramentas, eu gosto muito como a Adobe vem trabalhando os seus softwares, oferecendo ferramentas mais intuitivas, mais pensada para o usuário e seu processo de criação.

 

E por último, um conselho para quem quer desbravar este mercado.

Foque suas energias nas coisas certas. Aproveite oportunidades no meio acadêmico em trabalhos que trazem resultados para construir seu portfólio. Nunca perca a chance de se mostrar e mostrar seu trabalho, você é sua marca, e a timidez ou medo da crítica são seus inimigos.

 

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